Cartas de Miguel pela vovó Eva - 1

Atualizado: 27 de jan.


27 de Janeiro de 2022

Nasci prematuro em 27 de junho de 2015, às 09:33 hs, com 1.520 KG, 39,5 cm, Apgar 10/10 (um dia vou saber explicar o que isso significa), idade gestacional 33 semanas e 3 dias. Tenho várias histórias para contar sobre isso tudo, mas hoje quero falar somente sobre o momento presente, essa coisa que os adultos tem muita dificuldade em fazer pois ou estão ruminando o passado ou estão ansiosamente tentando viver o futuro e eu não entendo como isso pode ser possível, eu gosto muito de curtir intensamente o agora e me divirto com quem está comigo, seja no lugar que for e com os recursos que tivermos.


Sobre hoje quero dizer que estamos vivendo uma situação estranha mas que eu entendo pois consigo compreender e aceitar as coisas que não posso mudar com uma facilidade que todos que convivem comigo ficam bastante surpresos. Parece até que tem uma oração que fala parecido com essa minha prática: "aceitar o que não pode ser mudado" e sinto que isso funciona bem. Percebo que existe paz e harmonia quando aceitamos o fluxo do universo por mais duro que possa ser, quando lutamos contra esse fluxo tudo fica mais difícil, pesado e arrastado.


Minha vó foi me buscar lá em Florianópolis, aonde moro com meu pai minha mãe e minha mana, porque logo "finalmente" iniciarão minha aulas e aí vou poder vir para São Leopoldo somente em feriados e férias. Sobre escola, vai ter uma carta específica também ou várias. Já quero deixar claro que  aqui a escrita é livre, não tem muita regra ou cronologia,  a intenção é partilhar um pouco de nossa vida que uma tal de pandemia virou do avesso e parece que prossegue revirando.


Voltando a este momento, preciso dar uma chegada lá na semana passada para contar o que aconteceu: antes da vovó chegar tive febre, minha mãe se preocupou, meu papai e ela me cuidaram e em dois dias minha febrinha passou e no dia que passou vovó foi passear comigo e a mamãe, tivemos dois dias maravilhosos de praia, lagoa, piquenique, passeio de barco pela Barra da Lagoa (já fez esse passeio?). Vamos criar também um bloco de dicas de passeio do Miguel e da vovó, esse passeio será a dica 1.


Um dia depois que saímos passear, o papai que estava em casa teve febre, dores no corpo, o que parecia ser uma gripe forte, mamãe ia monitorando ele por telefone e mandando ele tomar remédio para febre. Na sexta-feira vovó levou mamãe para casa e viemos para São Leopoldo, mas antes passamos para pegar uma amiga da vovó com seus dois filhos para irem de carona com a gente, a viagem foi bem mais divertida do que quando viajo só com a vovó. A Pietra e o Pedro me fizeram companhia no banco traseiro, quando cansei dormi escorado no ombro da Pi, paramos para almoçar e para lanchar e a Eva veio tagarelando com a Tia Carol no banco da frente.


Lembro que estava muito calor, muito mesmo, até falamos que se colocasse um ovo no asfalto devia fritar, o ar condicionado do carro foi nossa salvação e a viagem foi muito divertida mesmo, eu e o Pedro combinamos de tomar banho de piscina e senti que ganhei um novo grande amigo. Ah e a Pietra até me elogiou dizendo que sou “cabeça”, não entendi direito o que isso quer dizer mas foi na hora que estávamos conversando sobre Naruto e outros personagens que gostamos em comum.


Quando chegamos em casa vovô estava nos esperando e eu estava com bastante saudades, nos abraçamos muito e ele me beijou bastante. Só que a vovó disse para o vovô: "não me beija que estou esquisita, deve ser o efeito do ar condicionado na viagem”. Como era sexta, pedimos a tradicional pizza e até achei estranho que a vovó não pediu para tomar vinho com o vovô. Agora um segredo: tenho 6 anos e ainda durmo no meio deles e sei que eles são felizes assim então porque vou tirar isso deles agora que ainda posso? Quando eu for adolescente acho que eles vão colocar um gato em meu lugar porque um dia vou sair de lá, né?


Então, como de costume, rezamos, fizemos nossos melhores momentos do dia só que eu e vovô fizemos sozinhos porque a vovó já tinha ido dormir antes, ela disse que estava cansada de dirigir mas acho que ela estava esquisita mesmo. Quarto fechado, ar condicionado ligado noite toda, eu no meio dos dois dormimos a noite todinha, é tão bom jogar as pernas por cima deles, rolar na cama e abraçar qualquer um deles, mas confesso que sempre me aninho mais para o lado do vovô será que é porque a vovó ronca mais? Me sinto protegido e amado no meio deles ainda mais depois que rezamos juntos e pedimos por proteção para todos inclusive para eu “não ter sonhos bons nem ruins”.


Pode parecer estranho mas eu sempre peço isso desde uma vez que tive um pesadelo, aí escolhi que é melhor não correr o risco. Prefiro não ter sonhos bons nem ruins, só dormir bem e em paz. Gosto de simplificar as coisas.


No dia seguinte quando eu acordei a vovó não conseguia falar direito, a voz não saia e ao mesmo tempo a mamãe avisou a vovó que estava com febre lá em casa e com dor no corpo. Tem uma coisa que se chama COVID que eu escuto falar desde março de 2020, isso já me deu muito medo e tive medo de perder meus vovôs todos porque diziam lá no começo que os velhinhos morriam mais. Fiquei muito feliz quando os primeiros da minha família se vacinaram porque eu compreendo a importância da vacina, do uso de mascara, inclusive eu corrijo as pessoas quando a máscara não está bem colocada. Eu também uso bastante alcool em gel, já fiquei muitos dias sem sair de casa e sem ver ninguém porque eu sabia que era importante para todos não só para mim.


A Eva no sábado foi ao médico e a médica disse para que ela ficasse isolada e fizeram o teste que deu positivo, quem me conhece sabe o quanto eu sou grudado na Eva desde que nasci. Como eu sei que com a COVID não se brinca, aceitei, respeitei e estou ajudando no que posso ao meu vovô que mesmo tendo dormido no mesmo quarto testou negativo, a mesma sorte não teve a tia Carol que testou positivo igual a vovó.


Desde lá a vovó está isolada no quarto, se eu passo perto dela nós dois estamos de máscara e ela passa álcool em tudo o que ela toca, até na maçaneta da porta. Eu estou tranquilo porque sei que ela está vacinada e estou esperando pela minha vacina que está quase chegando minha vez de tomar. No meu caderninho de vacinação deve ter mais de 20 carimbos de vacina e olha que só tenho 6 anos, tenho orgulho desses carimbos porque eles me oferecem proteção, aquela mesma que sinto quando estou no meio da vovó e do vovô, é um sentimento bom e quero que todos logo possam estar protegidos.


Eu não entendo quando escuto alguns adultos discutindo sobre a vacina, se ela oferece proteção deve ser boa né? Gosto de simplificar e aceitar o que é bom e faz bem para todos.


Inclusive quero agradecer ao Papai Noel porque na carta que minha vó me ajudou a escrever pra ele lá no Casa da Montanha em Gramado meu pedido foi: “Quero que o COVID passe logo e que todos fiquem bem. E se der pode me dar um dinossauro também."


Logo volto com a carta 2 que ainda não sei bem sobre o que vai ser, mas assunto e pensamentos não me faltam então não devo demorar.


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